Uma notícia que merece silêncio crítico
A cobertura mediática sobre a translocação de lampreias no rio Mondego — apresentada como parte de um esforço de recuperação da espécie, com libertação de exemplares a montante, enquadrada num projeto técnico financiado — foi recebida com o entusiasmo habitual que acompanha três ingredientes fotogénicos: uma espécie ameaçada, uma ação no terreno e uma promessa implícita de solução. Em 2026 foram libertadas 30 lampreias, depois de 38 exemplares translocados em 2025.
A pergunta séria não é se a operação é mediaticamente apelativa. É outra: onde está a evidência robusta de que a translocação de indivíduos adultos é, por si só, um mecanismo adequado — e muito menos prioritário — para recuperar uma população em declínio?
O problema é estrutural — a resposta não devia ser logística
O próprio projeto reconhece que a redução da lampreia em Portugal tem sido atribuída a barreiras migratórias, sobre-exploração, pesca ilegal e alterações climáticas. Isto é: reconhece que o problema é estrutural, multicausal e sistémico. E, no entanto, a resposta que se torna notícia é o transporte de algumas dezenas de exemplares para montante.
A ciência sobre lampreias anádromas vai noutra direção: quando a conectividade do habitat é restaurada, a recolonização a montante tende a ocorrer rapidamente — incluindo no próprio Mondego, onde a colonização das zonas superiores aconteceu logo após a entrada em funcionamento da passagem para peixes de Coimbra. As orientações da IUCN para translocações de conservação sublinham precisamente que a transferência de indivíduos não deve ser tratada como substituto da remoção das ameaças que causaram o colapso populacional.
As perguntas aborrecidas — e necessárias
Quantas das lampreias translocadas efetivamente desovaram com sucesso? Qual foi a sobrevivência real dos ovos e larvas? Que percentagem do investimento foi aplicada em melhoria estrutural de habitat, mitigação de barreiras e monitorização larvar antes e depois da intervenção? Sem estas respostas, a operação pode ser meritória, mas não merece automaticamente o estatuto de evidência de sucesso.
Nada disto significa que a translocação seja inútil em absoluto: em certas circunstâncias pode funcionar como medida complementar. O problema está no salto lógico entre "pode ter utilidade complementar" e "está aqui a resposta estratégica" — um salto que não é sustentado pela literatura. A lampreia não responde a slogans: responde a caudais, temperatura, obstáculos, substrato, conectividade, condições de desova e sobrevivência larvar.
A posição da Karapau
Quem trabalha com uma espécie em declínio não está a fazer um favor ao mundo por contribuir para a sua recuperação — está a tentar garantir que amanhã ainda existe aquilo que hoje lhe permite existir. Não é heroísmo: é responsabilidade operacional.
Por isso a nossa posição é simples: pesca regulada, lotes honestos, transparência sobre a origem e só o que a campanha dá. A conservação séria não se mede em comunicados — mede-se em habitat, conectividade, monitorização e dados públicos.
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